Liderança em Organizações Temporárias sob a ótica da Gestão Estratégica de Pessoas
Uma campanha eleitoral pode ser analisada como uma organização temporária orientada a resultados. A aproximação não transforma política em empresa. Ela permite observar uma dimensão concreta do processo eleitoral: durante um período curto, pessoas com competências, responsabilidades e vínculos distintos precisam atuar de forma coordenada para transformar objetivos em ações. A campanha nasce com prazo para terminar, convive com incerteza e não dispõe do mesmo tempo de uma organização permanente para corrigir falhas, recompor equipes ou desenvolver capacidades. Por isso, a restrição temporal deixa de ser apenas uma característica do calendário e passa a condicionar planejamento, decisões, responsabilidades e execução. Campos e Falkowiski relacionam a administração estratégica à definição de papéis, implantação, monitoramento, controle e tomada de decisão.
É nesse ambiente que a Gestão Estratégica de Pessoas e Liderança, GEPL, ganha capacidade explicativa. Mascarenhas compreende a gestão de pessoas como mobilização, orientação, direcionamento e administração do fator humano, ultrapassando rotinas tradicionais de recursos humanos. Aplicada à campanha, essa perspectiva muda a pergunta central. Não basta saber quantas pessoas participam ou quais funções ocupam. É necessário identificar quais competências a estratégia exige, quem pode entregá-las, como serão combinadas e de que modo contribuições individuais serão convertidas em capacidade coletiva. A estratégia, portanto, não permanece separada das pessoas. Ela cria demandas humanas que precisam ser atendidas para que possa ser executada.
Fernandes reforça essa relação ao articular estratégia, competências organizacionais, competências individuais e desempenho. Numa campanha, comunicação, finanças, questões jurídicas, mobilização, logística e coordenação representam capacidades diferentes, mas interdependentes. Reunir especialistas não garante uma organização capaz de agir. Barney e Hesterly mostram que recursos e capacidades precisam encontrar uma organização adequada para que seu potencial seja explorado. A questão deixa de ser apenas quem possui determinada competência e passa a incluir como competências diferentes operam juntas. Responsabilidades imprecisas, comandos contraditórios ou fluxos decisórios confusos podem converter qualificação individual em esforço disperso. A gestão estratégica de pessoas aparece, assim, como mecanismo de integração entre aquilo que a estratégia requer e aquilo que a equipe consegue realizar.
A liderança ocupa posição central nessa integração, mas não deve ser reduzida ao candidato. O candidato exerce liderança predominantemente política, simbólica e mobilizadora, contribuindo para produzir direção e identidade coletiva. A coordenação geral assume função mais executiva e integradora ao converter orientações em prioridades, distribuir responsabilidades, conciliar áreas e sustentar decisões. Lideranças intermediárias fazem a ligação entre diretrizes gerais e problemas específicos. Mascarenhas reconhece a participação das lideranças das equipes. A campanha depende, portanto, da capacidade de manter diferentes níveis de liderança alinhados à mesma direção estratégica.
O alinhamento, contudo, não elimina a especificidade política da mobilização. Profissionais contratados podem atuar ao lado de militantes, apoiadores e voluntários, cujos vínculos com a campanha não decorrem das mesmas razões. Alguns participam por trabalho profissional; outros, por identificação com o candidato, com um grupo ou com um propósito político. Fernandes permite sustentar a importância do comprometimento com o trabalho e com os objetivos organizacionais, mas essa contribuição não autoriza tratar mobilização política como simples relação empregatícia. Esse limite precisa ser mantido. A campanha está submetida a regras eleitorais, relações partidárias, disputa de poder, exposição pública e exigências de legitimidade. A GEPL pode explicar como pessoas, competências e lideranças são organizadas para produzir ação coletiva integrada, mas não explica, sozinha, a totalidade do fenômeno político.
A relação entre estratégia e pessoas também não é de mão única. Mascarenhas mostra que abordagens mais recentes deixam de tratar indivíduos somente como executores de uma estratégia previamente formulada e reconhecem sua participação na aprendizagem, na inovação e na construção de estratégias emergentes. Na campanha, a execução produz informações. Equipes identificam dificuldades, respostas do ambiente, conflitos e oportunidades; essas experiências retornam ao processo decisório e podem modificar prioridades. Forma-se um ciclo: a estratégia cria demandas de competências; as competências exigem organização e liderança; a execução produz conhecimento; e o conhecimento pode alterar a estratégia. Surge, porém, um problema próprio da temporalidade. A campanha precisa aprender rapidamente, mas tende a se dissolver após o pleito. Parte do conhecimento permanece nas pessoas, parte pode migrar para outras estruturas e parte pode desaparecer. Aprender e preservar aprendizagem tornam-se desafios simultâneos.
A campanha eleitoral oferece, portanto, um campo legítimo para a análise pela GEPL, desde que os limites da comparação sejam preservados. O interesse administrativo não está em converter política em empresa, mas em compreender como uma intenção coletiva adquire capacidade de execução por meio das pessoas. A técnica jornalística recomenda que uma interpretação não selecione apenas fatos convenientes para confirmar uma tese e que informação e opinião sejam distinguidas com clareza. Essa cautela também vale para esta análise. A campanha possui dimensões de poder, identidade e legitimidade que ultrapassam a Administração; ao mesmo tempo, possui uma dimensão organizacional que não deve ser ignorada. É nessa fronteira que a relação se torna mais consistente. Estratégia, competências, liderança, comprometimento e aprendizagem formam um sistema no qual cada elemento condiciona os demais. Administrar estrategicamente pessoas em uma campanha significa organizar capacidades humanas para que objetivos possam ser compreendidos, executados, avaliados e revistos dentro de uma estrutura temporária.
Referência
BARNEY, Jay B.; HESTERLY, William S. Administração estratégica e vantagem competitiva. Tradução de Monica Rosemberg. Revisão técnica de Pedro Zanni. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
CAMPOS, Ivan Ferreira de; FALKOWISKI, Lissandro. Administração estratégica. Londrina: UNOPAR, 2014.
FERNANDES, Bruno Henrique Rocha. Gestão estratégica de pessoas com foco em competência. 1. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
MASCARENHAS, André Ofenhejm. Gestão estratégica de pessoas: evolução, teoria e crítica. São Paulo: Cengage Learning, 2020.
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